quinta-feira, 17 de abril de 2014

Se assim pudesse...

© Márcia Sanchez Luz

Para Gabriel García Marquez
(06.03.1927 - 17.04.2014)
















Seria do amanhã, se assim pudesse,
o sol que comemora a luz da lua
e no teu peito surge, em plena rua,
como um noturno afeto, quase prece.

Seria, do acordar, paixão que aquece
(em meio ao turbilhão da noite nua)
e de mansinho chega, se insinua
e faz do medo cor que empalidece.

Seria assim pra sempre um festejar
de cores, sons, sabores se alastrando
e nos trazendo à vida transparência

de sentimentos soltos pelo ar.
Como seria bom viver cantando
um mundo na alegria da existência!


quinta-feira, 20 de março de 2014

Outonal

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Google)















As folhas caem amarelecidas
no outono de meus sonhos olvidados.
Mas não são eles, mesmo que apagados,
os responsáveis pelas despedidas.

As folhas caem mesmo indefinidas
pelo cansaço (anseios acuados)
e no fracasso, adeuses desterrados
evocam emoções esmaecidas.

O que acontece então? Por que caíram
ao chão as ilusões tão bem descritas
em cartas que juravam não prescritos

o que dissemos e nos conduziram
a pretensões de amores sem desditas?
Talvez a teoria de infinitos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Desejos arcanos

© Márcia Sanchez Luz



(Img: Márcia Sanchez Luz)














Sonhos de moça-menina,
sonhos de mulher madura,
sonhos que a vida costura
e que o mau tempo assassina.

Sonho que a noite fascina
e que alegria perdura,
mas quando acordo a brandura
se perde - a vida fulmina,

pois não perdoa os enganos.
São tantos, sei, não tem jeito,
mas não são erros mundanos.

São só desejos arcanos
e com os quais me deleito,
pois que não são levianos!




sábado, 30 de novembro de 2013

Seiva Fátua

© Márcia Sanchez Luz






















(Img: Lucidez I, Gustavo Saba)


Eu te agradeço porque me cedeste
o corpo inteiro numa entrega mútua,
em que o prazer em sua forma agreste
rompeu de nossos corpos seiva fátua.

Insana gratidão a que me presta!
Pois se foi mútua, por que agradeceste?
Nesta paixão arrebatada e farta
não tem calor que não se manifeste!

Mas assim mesmo eu quero te dizer
que pude ser teu rei e teu vassalo
no instante em que tu foste minha amante.

Que seja então prazer a florescer
dentro de nossas almas! O que exalo
é fruto deste amor inebriante.



(Do livro “Porões Duendes”)


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Soneto do amor distante

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Girafa em chamas, Salvador Dalí)






















Por tudo o que vivemos sou refém
dos sonhos que deixamos de viver;
ficou saudade por não mais poder
amar-te na distância e mais além.

Eu sei, virou tratado que mantém
um bom bocado de ilusões de haver
tentado nesta vida não sofrer
ausência de um amor que nunca vem.

Escuto o som de notas distorcidas
pela distância que se faz maior,
mas que ainda existe na afeição real

e me alimenta a alma consumida
pela procura insana do sabor
de vida intensa,  ritmo ideal.


domingo, 29 de setembro de 2013

A Primavera


© Márcia Sanchez Luz

















O sol se abre
e a primavera em festa
celebra as flores, hiantes
como os pássaros
buscando pares
em beijos e abraços
fazendo a corte
em ritos de passagem
cantando o dia
que acorda fantasias.

O sol aquece
amorna a ferida
e a dor doída
parece que invalida
as tentativas
mais que atrevidas
de amar somente
e nunca estar ausente
ser confidente
à espera mais que urgente
de amor fremente
que arde e envolve a lira
em notas breves
em semitons parelhos.

E anoitecendo
a luz da lua grita
anunciando
o som mais que preciso
da noite insone
que nunca se aquieta.


(Do livro “No Verde dos Teus Olhos)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Madrigal

© Márcia Sanchez Luz





















Quero-te ao som do silêncio,
quero-te à sombra da estrela;
quero-te, amor, sem parelha!
Como te quero, endoideço!

Quero-te tanto e mal penso
que te querer me congela.
E este querer sem cautela
me faz viver sonho imenso.

Quero-te assim, como eu quero
que este querer não acabe!
Por ti, meu bem, não pondero

e mesmo nem considero
se em nossa vida não cabe
o amor que tanto eu espero.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Limite

© Márcia Sanchez Luz



     (Img: Apanhador de sonhos - Vladimir Kush)



Durante meses, anos, se apagou
o brilho da poesia e da canção.
E descontente, então, o coração,
de luto e amarguras se inundou.

O fato é que esta dor já se arrastou
por muito tempo. Basta de aflição!
Não posso mais viver na contramão
de meus desejos – a emoção gritou.

Eu quero da tristeza estar distante,
sentir da vida a leve brisa infinda
que o peito e o corpo todo acaricia.

Como é cruel a dor dilacerante,
que mesmo nunca sendo ela bem-vinda
insiste em ser da vida companhia!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sonhar alado

© Márcia Sanchez Luz


(Img) Girl with curls - Salvador Dalí



















Ele fugia a cada passo dado
por mim em direção ao seu encontro;
quando por vezes eu lhe dava os ombros,
voltava a me chamar para o seu lado.

Ele dizia estar apaixonado,
eu respondia assim, logo de pronto,
que parecia mais um reencontro
de duas vidas, de um sonhar alado.

Logo passamos a nos convencer
que o que deixamos era pra ficar
entre nós dois, como um selado pacto

de confidências sobre o abstrato,
eterno e transcendente renascer
de corações e flores a brilhar.


* Do livro "Quero-te ao som do silêncio!"

quarta-feira, 8 de maio de 2013

MELODIA

© Márcia Sanchez Luz



(Img: Juan Miró)



Não há que negar
nossas diferenças
posto que existem
o claro e o escuro
na mais densa mata
de todos os palcos
desta melodia
cujo nome é vida!

Transportada em redes
de luares rentes
pois que a ti concedem
o clarão da alma
da mais pura calma
concebida em noites
de total silêncio
onde a dor acaba
e o furor transcende
transpassando a mente
doce e saborosa
pois que vicejante
em tua fala quente
que atordoa e mente!

Faz-se soberana
como em ti emana
a presença humana...
Mãos que se entrelaçam
entregando espaços
antes tão restritos
a ínfimos laços!


Do livro: "No verde dos teus olhos", Ed. Protexto, PR, 2007

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Distanciamento


© Márcia Sanchez Luz



(Img: Soyez Mystérieuses - Paul Gauguin)



















Com quantos paus eu faço uma canoa
que ao mar me entregue? Quero só sonhar
na noite que me alenta e a dor escoa
sem que ninguém me apresse o despertar.

Bem sei que a tempestade vai chegar
e medo ou covardia não perdoa.
Porém não posso desejar que o mar
simule a mansidão de uma lagoa.

Existe o risco de não ser possível
voltar à terra firme e aí então
terei até o fim por companheiras

estrelas. Sei que a paz, sempre aprazível,
vou encontrar e, livre de aflição,
a vida será leve e alvissareira.

terça-feira, 5 de março de 2013

Liberdade


© Márcia Sanchez Luz

Img: Ninfa Azul Sonhando - Ana Luisa Kaminski





















Para alcançar-te em mares, destemido
senhor dos próprios atos, como faço?
Se vou buscar-te a nado, adormecido
fica meu corpo todo. E sem teus braços

como é que posso estar sem ti comigo?
Ao te buscar descubro que o fracasso
é não tentar (ainda que o castigo
venha) lutar pelo meu próprio espaço.

Assim nos é possível prosseguir
(mesmo que por caminhos diferentes)
a vida que escolhemos partilhar.

Amor não é tristeza a nos trair        
os sonhos e os desejos mais ardentes.
Quem tem grilhões não sabe o que é amar.