quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Frenesi

© Márcia Sanchez Luz


Orquídea, por Márcia Sanchez Luz





















Aos pedaços me atiro em movimentos
frenesi, momento insano, me questiono
se o que vivo é o que espero de minha vida
se ao teu lado vou me achar na despedida

Mesmo em sonhos, tropeçando em descaminhos
sou quem sou, não tenho nada que me impeça
de alcançar-me mais adiante, sem ter pressa

Vou viver meus sentimentos sem ti mesmo...

E ao dizer-me assim sem traços de amargura
sou de ti meu descaminho que não mente
e que sente a dor da perda que consente.


*Do livro Porões Duendes

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Se assim pudesse...

© Márcia Sanchez Luz

Para Gabriel García Marquez
(06.03.1927 - 17.04.2014)
















Seria do amanhã, se assim pudesse,
o sol que comemora a luz da lua
e no teu peito surge, em plena rua,
como um noturno afeto, quase prece.

Seria, do acordar, paixão que aquece
(em meio ao turbilhão da noite nua)
e de mansinho chega, se insinua
e faz do medo cor que empalidece.

Seria assim pra sempre um festejar
de cores, sons, sabores se alastrando
e nos trazendo à vida transparência

de sentimentos soltos pelo ar.
Como seria bom viver cantando
um mundo na alegria da existência!


quinta-feira, 20 de março de 2014

Outonal

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Google)















As folhas caem amarelecidas
no outono de meus sonhos olvidados.
Mas não são eles, mesmo que apagados,
os responsáveis pelas despedidas.

As folhas caem mesmo indefinidas
pelo cansaço (anseios acuados)
e no fracasso, adeuses desterrados
evocam emoções esmaecidas.

O que acontece então? Por que caíram
ao chão as ilusões tão bem descritas
em cartas que juravam não prescritos

o que dissemos e nos conduziram
a pretensões de amores sem desditas?
Talvez a teoria de infinitos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Desejos arcanos

© Márcia Sanchez Luz



(Img: Márcia Sanchez Luz)














Sonhos de moça-menina,
sonhos de mulher madura,
sonhos que a vida costura
e que o mau tempo assassina.

Sonho que a noite fascina
e que alegria perdura,
mas quando acordo a brandura
se perde - a vida fulmina,

pois não perdoa os enganos.
São tantos, sei, não tem jeito,
mas não são erros mundanos.

São só desejos arcanos
e com os quais me deleito,
pois que não são levianos!




sábado, 30 de novembro de 2013

Seiva Fátua

© Márcia Sanchez Luz






















(Img: Lucidez I, Gustavo Saba)


Eu te agradeço porque me cedeste
o corpo inteiro numa entrega mútua,
em que o prazer em sua forma agreste
rompeu de nossos corpos seiva fátua.

Insana gratidão a que me presta!
Pois se foi mútua, por que agradeceste?
Nesta paixão arrebatada e farta
não tem calor que não se manifeste!

Mas assim mesmo eu quero te dizer
que pude ser teu rei e teu vassalo
no instante em que tu foste minha amante.

Que seja então prazer a florescer
dentro de nossas almas! O que exalo
é fruto deste amor inebriante.



(Do livro “Porões Duendes”)


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Soneto do amor distante

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Girafa em chamas, Salvador Dalí)






















Por tudo o que vivemos sou refém
dos sonhos que deixamos de viver;
ficou saudade por não mais poder
amar-te na distância e mais além.

Eu sei, virou tratado que mantém
um bom bocado de ilusões de haver
tentado nesta vida não sofrer
ausência de um amor que nunca vem.

Escuto o som de notas distorcidas
pela distância que se faz maior,
mas que ainda existe na afeição real

e me alimenta a alma consumida
pela procura insana do sabor
de vida intensa,  ritmo ideal.


domingo, 29 de setembro de 2013

A Primavera


© Márcia Sanchez Luz

















O sol se abre
e a primavera em festa
celebra as flores, hiantes
como os pássaros
buscando pares
em beijos e abraços
fazendo a corte
em ritos de passagem
cantando o dia
que acorda fantasias.

O sol aquece
amorna a ferida
e a dor doída
parece que invalida
as tentativas
mais que atrevidas
de amar somente
e nunca estar ausente
ser confidente
à espera mais que urgente
de amor fremente
que arde e envolve a lira
em notas breves
em semitons parelhos.

E anoitecendo
a luz da lua grita
anunciando
o som mais que preciso
da noite insone
que nunca se aquieta.


(Do livro “No Verde dos Teus Olhos)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Madrigal

© Márcia Sanchez Luz





















Quero-te ao som do silêncio,
quero-te à sombra da estrela;
quero-te, amor, sem parelha!
Como te quero, endoideço!

Quero-te tanto e mal penso
que te querer me congela.
E este querer sem cautela
me faz viver sonho imenso.

Quero-te assim, como eu quero
que este querer não acabe!
Por ti, meu bem, não pondero

e mesmo nem considero
se em nossa vida não cabe
o amor que tanto eu espero.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Limite

© Márcia Sanchez Luz



     (Img: Apanhador de sonhos - Vladimir Kush)



Durante meses, anos, se apagou
o brilho da poesia e da canção.
E descontente, então, o coração,
de luto e amarguras se inundou.

O fato é que esta dor já se arrastou
por muito tempo. Basta de aflição!
Não posso mais viver na contramão
de meus desejos – a emoção gritou.

Eu quero da tristeza estar distante,
sentir da vida a leve brisa infinda
que o peito e o corpo todo acaricia.

Como é cruel a dor dilacerante,
que mesmo nunca sendo ela bem-vinda
insiste em ser da vida companhia!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sonhar alado

© Márcia Sanchez Luz


(Img) Girl with curls - Salvador Dalí



















Ele fugia a cada passo dado
por mim em direção ao seu encontro;
quando por vezes eu lhe dava os ombros,
voltava a me chamar para o seu lado.

Ele dizia estar apaixonado,
eu respondia assim, logo de pronto,
que parecia mais um reencontro
de duas vidas, de um sonhar alado.

Logo passamos a nos convencer
que o que deixamos era pra ficar
entre nós dois, como um selado pacto

de confidências sobre o abstrato,
eterno e transcendente renascer
de corações e flores a brilhar.


* Do livro "Quero-te ao som do silêncio!"

quarta-feira, 8 de maio de 2013

MELODIA

© Márcia Sanchez Luz



(Img: Juan Miró)



Não há que negar
nossas diferenças
posto que existem
o claro e o escuro
na mais densa mata
de todos os palcos
desta melodia
cujo nome é vida!

Transportada em redes
de luares rentes
pois que a ti concedem
o clarão da alma
da mais pura calma
concebida em noites
de total silêncio
onde a dor acaba
e o furor transcende
transpassando a mente
doce e saborosa
pois que vicejante
em tua fala quente
que atordoa e mente!

Faz-se soberana
como em ti emana
a presença humana...
Mãos que se entrelaçam
entregando espaços
antes tão restritos
a ínfimos laços!


Do livro: "No verde dos teus olhos", Ed. Protexto, PR, 2007