quarta-feira, 8 de maio de 2013

MELODIA

© Márcia Sanchez Luz



(Img: Juan Miró)



Não há que negar
nossas diferenças
posto que existem
o claro e o escuro
na mais densa mata
de todos os palcos
desta melodia
cujo nome é vida!

Transportada em redes
de luares rentes
pois que a ti concedem
o clarão da alma
da mais pura calma
concebida em noites
de total silêncio
onde a dor acaba
e o furor transcende
transpassando a mente
doce e saborosa
pois que vicejante
em tua fala quente
que atordoa e mente!

Faz-se soberana
como em ti emana
a presença humana...
Mãos que se entrelaçam
entregando espaços
antes tão restritos
a ínfimos laços!


Do livro: "No verde dos teus olhos", Ed. Protexto, PR, 2007

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Distanciamento


© Márcia Sanchez Luz



(Img: Soyez Mystérieuses - Paul Gauguin)



















Com quantos paus eu faço uma canoa
que ao mar me entregue? Quero só sonhar
na noite que me alenta e a dor escoa
sem que ninguém me apresse o despertar.

Bem sei que a tempestade vai chegar
e medo ou covardia não perdoa.
Porém não posso desejar que o mar
simule a mansidão de uma lagoa.

Existe o risco de não ser possível
voltar à terra firme e aí então
terei até o fim por companheiras

estrelas. Sei que a paz, sempre aprazível,
vou encontrar e, livre de aflição,
a vida será leve e alvissareira.

terça-feira, 5 de março de 2013

Liberdade


© Márcia Sanchez Luz

Img: Ninfa Azul Sonhando - Ana Luisa Kaminski





















Para alcançar-te em mares, destemido
senhor dos próprios atos, como faço?
Se vou buscar-te a nado, adormecido
fica meu corpo todo. E sem teus braços

como é que posso estar sem ti comigo?
Ao te buscar descubro que o fracasso
é não tentar (ainda que o castigo
venha) lutar pelo meu próprio espaço.

Assim nos é possível prosseguir
(mesmo que por caminhos diferentes)
a vida que escolhemos partilhar.

Amor não é tristeza a nos trair        
os sonhos e os desejos mais ardentes.
Quem tem grilhões não sabe o que é amar.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Colheita


© Márcia Sanchez Luz

 
    Divine Geometry - Vladimir Kush
 


Andei por sóis distantes e vazios,
atrás do vento que pudesse ter
a explicação de tanto anoitecer
sem ti para acalmar-me os arrepios.

Vaguei por entre ausências, dias frios,
atrás da brisa morna a percorrer
meu corpo sem teu corpo, sem prazer,
mas nada! Achei somente parcos rios

de prantos que deixei pelo caminho.
E tantas lágrimas me vi bebendo
(como a tentar desafogar a dor)

durante a minha estada sem carinho!
Agora eu sigo em frente e me transcendo
na vida, seja ela como for.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Depois da chuva...

© Márcia Sanchez Luz


 
(Img: Márcia Sanchez Luz)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
E se eu viver ao teu lado,
espera a noite chegar
e meus sonhos embalar?
Quero meu dia abrandado,

meu sorriso abandonado
nos teus braços a ninar
todo meu corpo a gritar
por um carinho, um agrado
 
que só tu sabes fazer!
Serei plena, inteira tua
como se pudesse a lua

estar sempre a incandescer
e nos abrigar sem fim
neste jardim de jasmins.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Alzheimer

© Márcia Sanchez Luz

Em memória de minha mãe, Nilze, que ontem fez sua passagem e nos deixa cheios de saudades...






"Não vou sentir saudades.
Vou guardar você no meu coração."

Francisco Sanchez





O olhar distante, a fala deprimida,
uma canção antiga na vitrola,
a busca inútil no vazio da vida
que traz no vento a dor que desconsola.


Chegando a noite veste a camisola
e nutre a espera, como se fingida
fosse em querer lembrar porque se isola
de um mundo onde a memória é já perdida.

De manhã cedo os pássaros deslizam
por sobre seu jardim para avisar
que o dia que chegou é na verdade

um tempo onde a palavra é só saudade
de um astro que não pode mais brilhar.
Recordações agora se anarquizam...

(Do livro "Quero-te ao som do silêncio!")

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Semente inteira de mim

© Márcia Sanchez Luz

 

(Img: Márcia Sanchez Luz)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sou como uma flor que abraça
o vento que sopra do sul...
A luz que paira transporta
ilusões de um bem-fazer sem fim.
 
Semente inteira de mim
a muda prepara, serena
o broto que abarca e completa
na carência em compleição
meu silêncio mais profundo.

Vou como num voo inquieto
meu travesseiro buscar
na sombra que emana presença
de um coração que se vai.

E como a flor, vou partir
e a brisa ao norte volver
levando semente fagueira
do amor que um dia plantei.

 

sábado, 28 de julho de 2012

Do que fiz

© Márcia Sanchez Luz



(Img: Márcia Sanchez Luz)


















Eu fiz de teu sonhar um doce afago
e sempre que me atrevo acho morada
para guardar o afã que, sem pecado,
me assusta e de meu medo faz cilada.

Eu fiz de teu sonhar meu aliado
para entender a dor desarrumada
e sufocar o pranto num bailado
de sóis atrás da lua enamorada.

De ti fiz meu maior e eterno abrigo
(alento que me acaricia o sonho
e mostra o norte quando estou à morte.)

Com teu afago não corro perigo,
pois sei que ao lado teu me recomponho
e vou em frente, cada vez mais forte.


(Do Livro "Porões Duendes") 

domingo, 17 de junho de 2012

ÚLTIMO CAPÍTULO

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Death, Inga Nielsen)


                      















A chuva cobriu meus olhos,
mas não é chuva que lava;
é chuva que vem do peito
ferido pela tristeza

de ver um ser tão amado
se definhar dia a dia.
Não há remédio que cure
o corpo cansado e fraco.

Ninguém fica pra semente,
eu sei, mas dói constatar
que somos assim tão frágeis,

prisioneiros de nós mesmos,
da carne que nos embala
o espírito atemporal.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Aqui onde moro...


© Márcia Sanchez Luz


(Img: Márcia Sanchez Luz)



















Aqui onde moro
quero-queros logo gritam
se alguém se aproxima.
A coruja à tarde observa
pra de noite começar.

Tartarugas no verão
primavera por que não?
Correm lépidas pra chuva
atrás de água pra beber
cantinho pra namorar.

Beija-flores nas grevilhas
russélias brancas, vermelhas
aguardam carinhos e beijos
enquanto ixoras sorriem
esperando sua vez.

Jasmins de todas as cores
com suas formas variadas
exalando olores diversos
perfumam o ar, dançam ao vento
trazem paz, doces alentos.

Jerivás e guarirobas
reais e imperiais
arecas e washingtônias
palmeiras aqui não faltam
pra brindar as helicônias.

Aqui onde moro me integro
entrego-me às plantas e aos bichos.
Mensageiros do vento tilintam
alertam pra chuva que vem
e pra que vai embora também.

Os bichos que aqui trafegam
não precisam de controle
seja em terra ou no ar...
Não se agridem como os homens
vivem em total sintonia.




*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Delitos de amar

© Márcia Sanchez Luz

(Img: Don Juan, The Nude - Salvador Dalí)

Se dizes que me amas, acredito,
mas em seguida sinto que este amor
é idêntico na forma ao anterior:
idealizado, mais parece um mito.

Eu vejo que no amor tu és perito
assim como o poeta é fingidor:
inventas e acreditas num fervor
e dele fazes teu maior delito.

Não sei se vale a pena prosseguir
te amando como se verdade fosse
o que sentes por mim. Melhor partir,

fingir que os dois fingimos sentimentos,
que por palavras nós nos abraçamos
como se amantes fôssemos, invento.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Segredos de beija-flor

© Márcia Sanchez Luz

Para Aracéli Martins, em seu aniversário


(Img: Márcia Sanchez Luz)


















Um beija-flor pousou em meus cabelos
e me contou segredos de outras terras.
Falou dos mares, rios e das serras,
dos seres mágicos, frugais modelos

do que é ser puro, do que é ter desvelo
pelo universo, pela biosfera.
Em nosso orbe a vida já se ulcera
e dele conhecemos o novelo,

o trágico final que se apresenta
e delineia a era que virá.
A natureza avisa mas se isenta

se não olharmos todos seus sinais!
Um beija-flor pousou em meus cabelos
e me cobriu de beijos musicais...